Lourenço Marques, elevada a Cidade por D. Luís I (1)

Como era Lourenço Marques, quando nasci há 77 anos?

Uma pacata capital colonial – elevada a cidade com a assinatura do rei D. Luís I (Novembro de 1887), também o ano do Plano de Expansão que definiu o seu arruamento para mais de 70 anos – e que passou a capital da Colónia em substituição de Moçambique, a cidade-ilha que durante séculos centrara os interesses do Reino na Costa Oriental de África, ainda que dependente do Governo da Índia, e onde, durante séculos, perpassaram histórias, “estórias”, historietas, boatos, invejas e ardis portugueses, bem como de muitos aventureiros estrangeiros e, ainda, o nome de Camões.

Essa descida do Norte de Moçambique para o Sul indicia a atenção que o governo de Lisboa estava a dedicar não apenas ao desenvolvimento da Colónia como, ainda, à defesa do nosso interesse face à crescente pujança da influência britânica já que esta estendia o seu manto sobre vastíssimas áreas africanas, em especial as localizadas nos trópicos e, mais a Sul, nas das zonas de clima temperado.

Foi assim mesmo. Vários países europeus acharam-se no direito de traçar, por tratados, as fronteiras de centenas de milhar de quilómetros quadrados onde viviam milhões de humanos que não foram consultados; a questão das fronteiras pouco ou nada dizia aos povos africanos que, aliás, como é histórico, resistiram quanto puderam com zagaias, arcos e setas, escudos de pele e um que outro bacamarte, à ganância pelo marfim, peles, ouro, pedrarias, ainda que estas estivessem em bruto, depois de, durante gerações, os europeus se terem saciado com o tráfico de escravos, depois extinto oficialmente mas que se continuou sob a capa de estratagemas jurídicos.

A população negra, dividida em tribos e a prática de línguas diferentes, apenas conhecia o mundo em que vivia e por onde circulava chegando aos limites definidos pelos percursos possíveis, isto é, não indo além das caminhadas que podiam efectuar em poucos sóis e luas.

As ideias europeias eram estranhas aos naturais. Fácil é compreendê-lo porque assim também viria a acontecer aos portugueses de 2.ª e 3.ª geração nascidos no território. Criaram raízes na terra em que tinham nascido e onde já estavam sepultados, pais, avós e bisavós; consideravam-se tão africanos – mesmo que não na cor – e consideravam a terra que pisavam e que um dia lhes serviria de mortalha, como sua, mesmo que se perdessem, igualmente, na saudade do que nunca tinham conhecido, o distante Portugal onde tinham nascido e vivido os seus antepassados.

Tendo crescido no distanciamento das raízes de sangue e sentindo-se, só porque eram brancos, como uma parte, ainda que ínfima, do Poder na África conquistada, acreditavam estar a contribuir para a civilização das massas humanas submetidas. De entre estas, mesmo quando viviam e procediam “à portuguesa” , destacam-se os africanos negros que alcançavam o estatuto de “assimilados”; eram, porém, olhados com desconfiança e o convívio entre as duas comunidades manteve-se distante e fraturante. Assim se pensava e se sentia antes do 25 de Abril; boa parte dos coloniais enaltecia a grandeza da Pátria distante, mesmo que pequena e pobre, mas extasiava-se por se sentir nos grandiosos e infinitos espaços africanos, perdidos e esquecidos que estavam o passado Índico e os enclaves na China e na (hoje) Indonésia.

Durante tempos, olhou-se para África como se essa fosse a fonte principal da redenção portuguesa, do restaurar da grandeza passada, a tal de que ainda hoje se fala mas que nunca ninguém ou quase ninguém – se exceptuarmos a propaganda do fim da Monarquia, da I República e do Estado Novo – fala com discernimento, conhecimento de causa, conhecimento directo, entenda-se, com isenção de falsos nacionalismos e mais falácias, a que, até hoje, muitos são os que vivem ancorados, em especial, quantos nunca superaram os “fumos” do Império.

 Lourenço Marques foi, ao longo dos anos, deixando os pântanos doentios que alimentavam o paludismo  – a doença terrível a que os mais ilustrados chamavam malária -, também a bílis de que se falava, apresentando a “biliose” como um vírus terrível que, como muito ouvi dizer, só acalmava e regredia com champanhe francês, o belo pretexto para a rapaziada que aguentava uns copos e que nisso fazia gala, antes que o whisky, como é fácil entender, entrasse a jorros no consumo de todos os que o preferiam ao vinho e à aguardente metropolitanos.

O whisky tornou-se um lenitivo apetecido, uma cura para todos os males, mais, evidentemente para quantos o apreciavam com gelo e água mas também com água tónica e até com soda… Chegou a ser indicado como prevenção contra as febres palustres, aliás, mais um hábito que justificava o seu consumo ao fim da tarde. Recordo como era comum encontrar nos meus anos de menino, quem, ao fim da tarde, se sentasse em cadeiras de verga, junto à respectiva mesa de apoio, oriundas da Ilha da Madeira; bebericava-se o néctar escocês nas largas varandas coloniais ornamentadas com colunas de madeira encimadas por grandes vasos de cerâmica, ou de barro, com fetos e avencas muito verdes, pujantes e faustosos nas suas ramagens.

Lourenço Marques ou L. M. (depois marca de cigarros que fez carreira na Colónia), foi durante decénios uma terra de lamaçais, com casas pobres e armazéns cobertos a zinco, por vezes a colmo, e distinguia-se pelo crescer do casario que rompia a vegetação das encostas sobranceiras ao porto e à malha urbanística da Baixa, “onde tudo começou”, como sempre ouvi dizer e que acabaria por resultar numa das mais belas, modernas e bem desenhadas cidades de toda a África.

(continua)
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Uma resposta a Lourenço Marques, elevada a Cidade por D. Luís I (1)

  1. MARIA DO ROSÁRIO DE SATÚRIO-PIRES diz:

    Gostei muito .Obrigada

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