Reconstruções da Memória (3): ainda o Fernando Bettencourt

(continuação)

Com este palavrear, nem acabei de contar o que se passou com o Fernando Bettencourt. O Fernando lia, e muito, tanto como adorava seguir as “ninfeletas”, catrapiscá-las, enamorar-se e namorar as que lhe correspondiam… Como lia bastante e como vivia os sonhos do pós-guerra que falavam em Liberdade, Fraternidade e Igualdade, uma trindade que à época já contava mais de 170 anos, uma miragem nunca alcançada que, aliás, a mão, o gesto, a voz, o sentir, o pensamento e a acção dos homens nunca permitiu, e duvido que venha a permitir concretizar, também navegava pelas nuvens e sonhos da Europa Oriental.

Denunciado – sabe-se lá por quem -, ele que era um leitor inofensivo, por ventura nada mais do que um devaneador, acabou na choldra da PIDE. Encontraram uma ou duas cartas que lhe escrevera após a sua partida de Vila Manica e aí vai disto! Trabalhava eu na empresa gasolineira cujos escritórios se localizavam em plena “Baixa” da cidade, emprego em que penei 17 anos, aí começando a redimir-me dos pecados pela obrigação em ouvir e conviver com opiniões caricatas, e até soezes, “lamechadas” ou arengadas por colegas cujos principais fitos eram a comilança, a ambição monetária, o futebol, a praia, correr saias, para além das constantes mesquinhice e inveja. Claro que havia excepções mas, em toda a verdade, não eram assim tantas…

A PIDE chegou quase ao cair da manhã de um dos dias finais de 1957 quando os cafés da zona (“Continental” e “Scala”) regurgitavam de gente; trepou ao prédio, entrou de rompante, os agentes armados como manda o figurino e falando suficientemente alto para que se pudessem ouvir em todo o prédio. Pegaram-me, um em cada braço e descendo a escadaria do Prédio Santos Gil, empurraram-me para um jipe, levantando burburinho na esplanada do “Continental”.

Lá fui a caminho do interrogatório e de duas valentes bofetadas e alguns murros. Como era só pele e osso (que saudades, êh pá, que saudades!) doeram-me para caramba e voei de um canto a outro da casa; o agente tentou espremer-me porque lhe fazia confusão que tivesse um pronome eslavo; não acreditava!, aquilo era nome de código do partido (???!!!???) e tinha que “vomitar” ali, ali mesmo, o nome dos que compunham a célula! Como se tratava de coisa de que nunca ouvira falar e como sabia que em Moçambique a “fome” da PIDE estava mais voltada para os movimentos, então ainda ténues, do nacionalismo moçambicano, não atinava com o caso; fiquei, no entanto, muito animado quando ouvi que o Bettencourt também estava engaiolado e que também não avançava nada! Pudera, ele era “comunista” pelos livros, ainda que depois tivesse aportado a Argel e se inserisse na  propaganda anti-salazarista, como era natural, correcto e dava um certo espírito de Liberdade a quem comungasse nessa oração.

Desiludido, esteve, depois, na Checoslováquia e em Paris onde voltou a casar. Entusiasmado – sempre numa onda poética de sonhos e devaneios – partiu para Moçambique para, tal como ouvi a muitos outros! – ajudar a reconstruir o país dinamitado pela exploração colonial; levou a mulher, a Eisabete, os livros e discos que eram toda a sua riqueza. Acabaria por ter de deixar tudo, isto é, os  nadas que faziam a sua vida, os livros e os discos (ainda de 78 rotações) e fugir. Foi a  2.ª vez que fugiu de Moçambique.

Voltámos a encontrar-nos anos depois; esteve em nossa casa durante uns 15 dias e depois regressou às “Franças”. Ainda voltou a Lisboa mais uma vez, dessa feita com a Elisabete e continuámos a usufruir tempos de boa amizade. Depois, abalou para Paris e como nunca escrevia perdemos-lhe o rasto. As cartas que escrevi para a morada que tinha regressavam por abrir. De uma feita que estive em Paris, fui ao Consulado português para saber se localizava o casal. Porém, como não estava registado – pelo menos assim me disseram – voltei a Lisboa e nunca mais soube dele, isto é, nunca mais tive dados concretos. Cerca de um ano atrás soube que tinha morrido e que a mulher vivia em Bordéus com o filho de ambos. Da filha Ada nunca mais soube, nunca mais ouvi falar. Há dois/três anos atrás soube que uma das irmãs do marido, de apelido Tabosa Vaz (?) estaria por cá e que se encontraria com um parente meu; pedi-lhe que se encontrasse a tal familiar da Ada lhe pedisse o endereço; como nada me chegou atempadamente, telefonei-lhe umas semanas depois e respondi em resposta um seco “não me lembrei de falar nisso”. A família tem destas coisas: ou tem o mesmo sangue mental e os mesmos afectos ou é como acabei de relatar, uma indiferença mais fria que uma calote polar envolve um mar de gelo.

Voltarei, depois de mais umas horas, para continuar este rol de vida.

(continua)

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