Reconstruções da Memória (1)

A Igreja da Namaacha, localidade onde os meus pais tinham uma “casa da montanha”. Local paradisíaco, de temperaturas amenas e secas (foto da colecção ©Angela Camila Castelo-Branco e António Faria)

A Primeira Página

Explico-me. Ainda que raramente, chegava-me ao pensamento a ideia de escrever “umas coisas” sobre o meu passado português na terra em que nasci e vivi 40 anos e uns dois meses mais, uma das minhas pátrias, Moçambique.

As ideias são como a espuma. Vêm à crista da onda e desfazem-se logo de seguida se as não apanhamos na curva mais alta e nos deixamos levar no seu movimento como se nos libertássemos em voo solto nos ares.

Achava, ainda, que nada tenho de importante para contar, então, para quê e porquê escrevê-las? Nunca tive um cargo importante, nunca fiz uma carreira – naquilo que se entende como uma “carreira”, um escalar de posições, muita vez, sabe-se lá como foram atingidas! -, nunca fiz fortuna, nunca vivi vertigens de poder e a única vez em que uma situação se me afigurou ao alcance da mão, logo desliguei o aparelho que me ligava a essa maquinaria, a da importância.

Parece-me que se trata de uma má formação adquirida na então Lourenço Marques, em especial por aquilo que observei ao longo da meninice, adolescência e já como adulto. Lá, na sempre saudosa Lourenço Marques – acrescente-se que já não conheci a actual Maputo -, qualquer lugar, desde que mais não fosse do que um primeiro patamar de chefia – estava reservado a gente nascida na então “Metrópole” e que ia chegando a Moçambique já com a nomeação assinada pelo Governo Central ou escolhido pela Administração das grandes companhias – não só portuguesas – que “chupavam” o tutano colonial e ficaram conhecidos pelo ápodo de “inspectores de cachimbo”; aos portugueses fixados na colónia há várias gerações restavam o trabalho administrativo e as funções de capataz-feitor e outros semelhantes nas explorações agrícolas, nas companhias comerciais e industriais ou de escriturário, isto é, paus mandados às ordens de todo e qualquer pintalegrete –  muita vez semi-analfabeto, “chegante” de recente data e que se adornava com um grau académico, assim, destinado a ocupar um cargo de relevo. A partir dos anos 50 as coisas mudaram e logo na década seguinte, a de 60, foi um ver se te avias que não tem explicação! A cidade cresceu desabaladamente, fizeram-se negócios de alto lá com eles, os aviões da TAP descarregavam gente em catadupas, quase toda amanhada à sombra dos poderes… de Lisboa. Inclusive, nas grandes companhias portuguesas e creio não estar a disparatar porque muitos foram os que conheci na petroleira em que gastei 17 anos, desde a juventude até aos quarenta!

Aliás, só depois de ter chegado a Lisboa é que descobri como é que era possível tal situação. Bem sei que o 25 de Abril encharcou as Faculdades com tipos que não tinham qualquer preparação nem aptidão intelectual. Alguns, até, escreviam que era uma dor de alma. Foi um baque na alma. Alguns “mestres” havia que nem licenciados eram!

Na colónia também havia aqueles – em especial nos anos 10, 20, 30 e 40 – que tinham chegado por qualquer delito e tinham sido punidos com o degredo ou com residência fixa na Colónia. Também havia quem chegasse ao território pelos mais variados motivos, incluindo-se nestes a cura de males de amor –incluindo os que se sabia terem sido adornados com galhos à antílope – e continuavam a receber cartas das “arrependidas” que choravam em delíquios de letra garrafal e com afrontamentos garatujais pedindo todos os perdões do mundo; havia, ainda, os sofredores da pauta política vigente, os que tinham corrido calçadas pelas dificuldades de emprego, mas, muito mais frequentemente, a procura de uma situação social e/ou financeira superior à deixada na distante “terrinha” marejada pelo Atlântico, nestes também se incluindo quantos tinam o espírito de aventura e se lançavam de peito feito à aventura africana.

Num patamar elevado estavam os governadores gerais, por vezes, também, os governadores de distrito – que saíam das fileiras de oficiais superiores da Marinha ou do Exército para exercer a suprema autoridade colonial. A cadeia de governantes que ocuparam o cargo em Lourenço Marques de 1934 a 1974 é fácil de estabelecer e como se sabe foi preferencialmente elaborada com oficiais do Exército ou da Marinha.

Exceptuam-se os últimos, o médico e prócere marcelista que na terra ganhou bom nome em várias camadas populacionais, até entre a população negra, Baltasar Rebelo de Sousa (1968-70), o Eng. Eduardo Arantes e Oliveira (1970-72) e o Eng. Manuel Pimentel Pereira dos Santos (1972-1974).

Na sequência do 25 de Abril a porta abriu-se a uma rápida sucessão de nomes que rodaram e saíram em alta velocidade: David Teixeira Ferreira; o advogado Henrique Soares de Melo que se dizia ter chegado à efémera função por obra e graça do advogado António Almeida Santos que depois de regressar a Portugal iniciou uma carreira política que lhe deu acesso a altos cargos, nunca atingindo o lugar de Primeiro Ministro a que se candidatou numa peleja em que ele e o seu partido, o PS, saíram vencidos; David Teixeira Ferreira e Jorge Ferro Ribeiro, todos em 1974, seguindo-se, depois, o oficial da Marinha, Victor Crespo (1974-75), que foi o alto comissário português em Moçambique encarregado de fazer a transferência de poder para a Frelimo e sobre quem se contaram as estórias e historietas de x. p. to, muitas das quais possivelmente atoardas, sempre comuns em momentos de desvario e de crise.

Assim quero crer.

De todos estes últimos, lembro-me do Soares de Melo, de uma família de origem indo-portuguesa, referência que se faz pela importância que durante decénios a população dessa origem teve na gestão da Colónia; era um conceituado advogado na capital; lembro-me bem da bela casa que os Soares de Melo tinham na Namaacha – a que pelas qualidades climatéricas chamavam a “Sintra” de Moçambique, pequena vila alcandorada nos Montes Libombos e onde muitos laurentinos, também alcunhados de “coca-colas” tinham casas de férias, vulgo vivendas, umas maiores, outras menores. E não se riam com a qualificação: é que, ao tempo, Moçambique era a parcela do império português que tinha uma fábrica de coca-cola.

(continua)

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2 respostas a Reconstruções da Memória (1)

  1. ABM diz:

    Simplesmente lindo. Escrita límpida e assunto interessante. ABM

  2. yussuf adam diz:

    Optimo..Continue..Ca fico a espera de ler o que vem ai..

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