Reconstruções da Memória (2)

O meu sogro (o primeiro de pé, à esquerda, com o braço apoiado na espingarda), o futuro administrador Arlindo Dias Graça, numa caçada na Zambézia, nos anos 20 (foto da colecção © Angela Camila Castelo-Branco e António Faria)

(Continuação)

A propósito da Namaacha permita-se-me uma pequena viagem pessoal. Andava eu pelos 22/23 anos quando me vi envolvido numa embrulhada como outra não vivera até esses dias. Um dos grandes Amigos com quem me cruzei na vida chama-se ou chamou-se Fernando Bettencourt Rosa que conheci quando em 1956 cumpri serviço militar na Vila de Manica – a antiga Macequece – que tinha como comandante do quartel, o Capitão Passos Pereira de Esmoriz que depois da Revolução voltei a encontrar já General no Comando da Guarda Fiscal; aparentava ser oficial muito severo, até rígido e intransigente, dado a explosões de mau feitio; naquela época não me pareceu assim tão terrível, apesar de haver oficiais, sargentos e praças que o temiam; fiquei sempre com a ideia de que se tratava de pessoa sensível, com interesses culturais e que sempre me tratou com agrado mesmo quando me pregava um raspanete; guardo ainda, um delicioso documento anotado e assinado por ele: ao fim de semana, se o pessoal queria andar à civil tinha que pedir autorização ao Comandante; numa dessas ocasiões, no pino do Verão, Fev.º/1956, o pedido recebeu, a vermelho, um despacho seguinte em que dizia que apesar da “ligeireza dos costumes” africanos não devia vestir um calção com medidas tão diminutas; ora, eu, pesava nesses tempos idos não mais do 55 quilos!, uma ninharia para o meu 1,77cm!  O capitão que vivia em Manica com a mulher e uma filha ainda criança, tratava-me de uma forma diferente dos demais cabos milicianos porque me via sempre de livro na mão ou debaixo do braço, num tempo em que quase somente lia francês, Camus, Prevert, Aragon, Bernanos, Mauriac, etc, i.e., o que vinha a eito, “era canja”.

Creio que posso dever o seu bom tratamento a esse amor à leitura. Talvez por isso tivesse direito a  outro tratamento, diferente do que aplicava a outros camaradas. Numa tarde assomou à porta do seu gabinete e esticou a voz estentória: “Cabo Miliciano nº 19, ao Gabinete”; estava eu muito compenetrado a fazer na messe um galão de leite com café e chocolate quando o ouvi; estava de meias caídas, sem bivaque, as dragonas sem as divisas, o cinto desapertado, a camisa aberta até ao umbigo; assim avancei para o Gabinete, mexendo com cuidado o cacau no leite para que não ficasse com grumes; o Capitão ficou sem palavras e sem capacidade de gritar; virou-me as costas, bateu com a porta e fechou-se no seu canto. Não tenho lembrança de que me tivesse voltado a chamar naquela hora ao meio da tarde.

Tratava-se de um  chocolate holandês, o “Van Hutten”, uma delícia a que me habituara desde miúdo, comprado na mercearia “Magalhães & Sousa Dias”, casa comercial na antiga Avenida da República em Lourenço Marques e onde os meus pais eram clientes e faziam o “rancho” mensal. Do pessoal da mercearia  recordo a simpatia do Sr. Ferreira, atencioso e simpático que me ficou na lembrança já que me mimava sempre que lá íamos   com uma bolacha de araruta sempre que lá íamos. Outrossim fazia um dos proprietários, o Sr. Magalhães, que não nos deixava sair da loja sem uma guloseima. Essas delicadezas eram então correntes nas casas comerciais do género, assim também acontecendo na igualmente afamada “Pérola do Oriente” que se localizava na mesma larga avenida que funcionava como o eixo da “Baixa” da cidade; se estivéssemos de frente para a ponte-cais, a Av. da República prolongava-se pela esquerda com outros nomes, pois claro, pela marginal que corria quilómetros até à Costa do Sol, enquanto que para a direita seguia junto à cerca dos Caminhos de Ferro e ia nem sempre por caminho recto até ao ponto em que os subúrbios mergulhavam no mundo negro e desconhecido da “cidade do caniço”.

Volto, porém ao Fernando Bettencourt que para uso corrente podara a Rosa do apelido, como aliás, fez no registo da filha Ada e também muito possivelmente com o filho Aksel (?) ou Axel que nunca cheguei a conhecer; andava a caminho dos 30, quando o conheci; estatura média, moreno, insinuante, era então oficial miliciano que em boa verdade nada tinha a ver com os “homens da guerra”; gostava de ler e de música e não tinha nenhuma das qualificações exigidas para servir o Exército, mesmo que em tempo de paz; fazia sonhos e embrenhava-se em utopias, de que a menor era a de viver dia após dia na procura de um grande amor.

Bom, talvez não fosse bem assim já que entrava em novas paixões muita vez, paixões em que também surgiam as ninfeletas, percursoras da Lolita que poucos anos depois chegaria aos escaparates. Fazia quanto lhe era possível para que a mulher, a Didi, não desse por nada, obviamente, uma pretensão impossível mas que ele julgava exequível.

Foram dois grandes amigos e ao Fernando devo o ter lido escritores franceses e portugueses que de outro modo não teria conhecido. É que Lourenço Marques mais não era do que uma vilória com pretensões e algumas benesses de que a menor era uma praia enorme que se estendia aos seus pés e se prolongava por quilómetros até à Costa do Sol onde existia um restaurante cervejaria, famoso pelos camarões e a cerveja geladinha, a “Laurentina”. Ora está bem de ver que nesses anos 40 e 50 do séc. XX, laurentinos e laurentinas eram os naturais da cidade que só depois passaram a ser chamados de “coca colas” em consequência da introdução desse refrigerante no consumo citadino. É que Moçambique usufruía da regalia de poder beber o refrigerante, aliás, muito menos açucarado do que o mesmo produto que se vende no cantinho português da Europa. Dizia-se, à boca pequena, que Salazar não deixava produzir a bebida em Portugal Continental só para fazer ferro aos americanos que não o apoiavam como ele desejava!

Dos primeiros governadores, recordo o Coronel José Ricardo Pereira Cabral que entrou em funções depois do triunfo do 28 de Maio (1926-1938) e de que retenho o nome apesar de o Coronel José Cabral ter sido o nome dado ao parque localizado perto do Hotel Polana e onde a criançada da cidade “reinava” feliz aos saltos e pinotes e por vezes festejava os seus aniversários. O Coronel deixou o cargo e logo depois assumiu o governo da Índia mas deixou descendentes em Moçambique de que alguns conheci; não posso ter qualquer imagem sua, já que à data era eu menino de andar pela mão da minha Mãe.

Sucedeu-lhe

Comandante de Mar e Guerra Gabriel Teixeira, homem de origem madeirense.

Também assim acontecia com os presidentes das Câmaras das principais cidades, oficiais do exército que depois de passarem à reserva militar eram nomeados para sinecuras coloniais, mesmo que nada soubessem das gentes africanas que viviam de Norte a Sul da “possessão” nem das comunidades estrangeiras de vários e diferenciados tons de pele.

Poderia fazê-lo, no entanto, para recordação de filhos e de netos, até porque a minha filha se dedicou e dedica os tempos livres ao tratamento, estudo e organização de uma colecção de fotografias de povos e terras do chamado “Império Colonial, algumas das quais autênticas e verdadeiras pinturas de brilho delicado e expressivo, não obstante a leitura que se possa fazer da situação em que viviam .

Ora, verdade é que poderia escrever longos parágrafos explicando as razões dessas cicunstâncias. De todas essas razões nenhuma frutificou em alperces de gosto saboroso e adocicado cortado por um leve travo de acidez, nem floriu como a flor vermelha do jacarandá. Nada disso.

Tudo aconteceu numa viagem de carro entre Lisboa e Coimbra aonde acompanhava um amigo, simpático, “tifoso”do Benfica, talentoso na sua arte, honesto e ambicioso, incapaz, porém, de se conter, falando de tudo e de nada sem qualquer base nem objectividade e não aceitando a experiência e o saber que a idade acumula pela leitura e pela observação dos diferentes estádios vividos.

Compreendi, depois de uma discussão – por vezes violenta – que não nos compreendíamos; dizia ele que uma monarquia é sinal do passado e reforçava a ideia acrescentando que Portugal é mais avançado do que os estados nórdicos; que as colónias nunca deram a Portugal qualquer vantagem, exceptuando-se o tempo de D. João V em que corria ouro a rodos para o país; que dos diamantes de Angola – assim mesmo, possivelmente nunca tendo ouvido falar na Lunda, sequer na “Diamang” – só chegavam a Lisboa umas ínfimas partículas; que de Angola e de demais colónias nada vinha com interesse para além dos pedidos de dinheiro; que a Piaf – perdõe-se-lhe o sacrilégio – era artista inferior ao Emanuel e ao Marco Paulo; que as mais importantes manifestações culturais da actualidade residiam nas novas tecnologias, em especial na utilização de computadores, i.e., conteúdos vencidos pela pujança das máquinas!, etc., etc.

Toda esta conversa mais não é do que um pretexto para visitar o passado, reconstruindo memórias que as águas do Tempo têm levado no correr dos anos, tantos, muitos mais dos que o calendário regista já que a saudade não se conta pelos anos passados.

(continua)

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2 respostas a Reconstruções da Memória (2)

  1. Vou levar para oferecer a uma amiga moçambicana.

  2. Pedro Rezende diz:

    Também eu conhecí o Nosso Brigadeiro Passos Esmeriz, Comandante da Região Militar do Norte (Porto), a quem sucedeu o Brigadeiro Eurico Corvacho e Pires Veloso. Dava 5 tostões (da altura) para ver a cara dele perante o atavio e a correcta dissolução do cacau. Além do conteúdo das suas crónicas, a escrita é formalmente bem conseguida. Um bom começo a que estarei atento.

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