Lourenço Marques, elevada a Cidade por D. Luís I (2)

O Príncipe Real no Palácio da Ponta Vermelha (L.M., 1907)

(continuação)

Em verdade, nos anos 30 do século passado, L. M. mais não era do que uma vilória pacata, com pouca população, inclusive na “cidade do caniço” que se estendia para além do Alto Maé, o caminho que leva ao Xipamanine. Neste mar de palhotas cresciam casas de madeira e zinco e mais comummente as palhotas maticadas, bairro de negros e de mulatos, estes os que viviam mais dentro dos usos e costumes africanos que eram praticados pelas mães em cuja cerca cresciam e amaduravam. Acrescente-se que muita dessa população mestiça – nascida da cópula entre brancos, mestiços e indianos com negras – apenas conhecia a mãe que fora derrubada na esteira por outro mulato, por um indiano ou por um branco que deixava à fêmea umas míseras moedas pelo “serviço”.

Daí que um som depreciativo qualificava e agredia os mulatos, i.e., os filhos de brancos e de negras: “filhos de uma quinhenta”, reminiscência que vinha de tempos mais recuados quando a “quinhenta” era o pagamento do serviço sexual, moeda ínfima que no final da época colonial valia cinquenta centavos ($50), metade de um Escudo moçambicano, uma vez que não havia correspondência entre o Escudo do Portugal europeu e insular e o de cada uma das colónias.

Acrescente-se que sempre foi difícil transferir Escudos de Moçambique para a “Pátria Mãe”, excepto em casos particulares, como sejam o gozo de férias graciosas dos funcionários públicos, os $ economizados durante as comissões de serviço militar (nos idos dos anos 60 da centúria passada, era ver como no bairro militar junto à então Rua de Nevala se tentava amealhar uns cobres, colocando nas janelas, à guisa de cortinados, folhas de jornais…!). Mas havia mais…tais como, os registos especiais de que se falava ocasionalmente mas baixando o tom de voz – um “busílis”, se ouvido por quem se esmerava em colher informações para as transmitir à secreta –  quando o dinheiro corria em candonga e/ou se faziam aquelas habilidades comerciais negociadas pelo comprador em Moçambique e o vendedor metropolitano: geralmente, uma percentagem sobre o negócio que entrava directamente na conta bancária que o importador estabelecido em Moçambique tinha na capital do Império. De muitos casos ouvi falar e de alguns tenho a certeza porque encontrei por cá alguns desses protagonistas com bons apartamentos, carros de gama alta e fazendo a mesma vida despreocupada que já antes do 25 de Abril de 1974 viviam, tanto lá como cá. Muitas “bocas” ouvi, também, a propósito de gente que se envolveu em política – igualmente, antes e depois – e que…, enfim, já se sabe… como é.

Voltemos – que já é tempo – ao Xipamanine, perdoando-se-me as derivações, naturais em quem escreve como se estivesse à lareira a falar com os amigos e os netos uma estória  dos dias felizes e dos tempos de angústia.

Na cidade negra, pelas noites de calores, ouviam-se batuques e é natural que o “putsu”, outras bebidas alcoólicas africanas e a cerveja aquecessem gargantas e corações e excitassem os sentidos. O som quente da batucada, de tão repetido noite após noite já não incomodava os poucos brancos, chinas e indianos que por ali tinham as suas cantinas, lugares onde se vendia um pouco de tudo, se bebiam copos de vinho – “a água de Lisboa” – mesmo que os clientes tivessem a certeza ou pelo menos desconfiassem ter sido temperada com água do Rio Umbeluzi, o rio que abastecia a cidade, distribuida, facturada e cobrada pelos SMAE (Serviços Municipalizados de Água e Electrididade), o organismo que substituiu a Companhia inglesa que funcionou até ao início dos anos 50 do séc. XX.

E que boa era a “água”!

Essa “bondade”  decorre, pois, de mais recordações de conversas com alguns negros e mulatos com quem privei e/ou trabalhei; afirmavam eles que pelo menos, se por um lado enricavam descaradamente os donos das “cantinas”, não favoreciam, por outro lado, o apodrecimernto em álcool dos seus irmãos ainda que pobres bebedores dos subúrbios. Não quero e não devo, pois, garantir que o baptismo do vinho possa ser encarado como uma medida salutar e não quero nem devo deixar de afirmar que essa acção – comum do Rovuma à Ponta do Ouro – era fundamentalmente uma extorsão, um estratagema, um entre muitos mais que testemunham a ganância dos “cantineiros”, fossem estes brancos ou indianos. Sempre assim pensei mesmo quando era um miúdo e vivia na Vila Gorjão, um largo “combóio” de casas geminadas, uma construção para habitação de ferroviários junto da cerca da área dos Caminhos de ferro, a caminho de uma das saídas da cidade. Certo certíssimo é que nada é indiscutível, tal como nada é totalmente verdadeiro quando se fala da nossa vida e da vida dos aoutros. Basta o fumo de um cigarro para alguém criar, de imediato, o cenário do cogumelo provocado por uma explosão atómica, uma das imegens terríveis da minha meninice.

O correr dos anos vai vergando o espírito à força imperiosa das lembranças e das saudades que nos acometem. É que não há como impedi-lo, a menos que se tenha a capacidade de mergulhar numa escuridão total tudo quanto foi vivido, os liames e as raízes vividas noutros tempos e noutras latitudes. Será possível que assim aconteça? Será que tudo quanto nos liga aos tempos idos é incolor, inodoro e insípido? Haverá quem acredite em tal desvario?

Já adulto, falando com um amigo, de raça negra, um colega no escritório da petroleira em que trabalhei dezassete desesperantes anos,  deu-me ele a versão com um sorriso subtil a versão que ouvira, por sua vez, de um cantineiro: o acrescento de água às pipas de vinho tinha sido um bem, apesar de não passar de fruto da ganância, muito longe de uma “protecção” da saúde dos consumidores do produto, tão ardorosos no emborcar da bebida como os profissionais do copo portugueses; bebiam e bebiam até que o corpo acabasse por bambear e caísse ao chão feito embrulho desmanchado.

As imagens das práticas “borrachantes” e da facilitação do emborrachamento remetem-me para um Relatório de Obras Públicas e Outros Documentos das Possessões em África, 1876-1881 onde, a dado passo, se pode ler a recomendação espantosa que se fazia a propósito do recrutamento de pessoal negro para as obras da construção do Caminho de Ferro de Angola: “… assim o melhor comércio será aguardente, com preço elevado, a que o preto não resiste e lhe será vendida só uma vez por semana, aos domingos por exemplo, para lhes dizimar o dinheiro sem lhes prejudicar a saúde…”. Apesar de se tratar de um relatório respeitante à colónia da costa ocidental africana, crê-se, absolutamente, que outros não seriam os conceitos aplicados a Moçambique, mesmo que o relatório Moçambique de António Enes, datado de 18..?, propusesse a criação de regras muto restrictas para a produção de bebidas “inebriantes” e a aplicação de multas severas a quantos as não cumprissem, por ventura, para defesa do comércio do vinho português, uma das mais volumosas produções nacionais. Assim, no capítulo XXXIX, António Enes escreve que o governo não podia dar aos indígenas “como presente, retribuição de trabalho ou por outro qualquer título, excepto em tempo e serviço de campanha” quaisquer bebidas alcoólicas; a recomendação finaliza com uma proposta, a de que o Governo convidasse “os agricultores do Continente a prepararem e fornecerem-lhe amostras de tipos de vinho que possam ter fácil consumo em Moçambique, por agradarem ao paladar dos indígenas, aconselhando-os a destinarem para esse consumo os vinhos brancos ordinários de elevada graduação alcoólica e fortemente açucarados”.

Apenas – e por pudor – não se transcrevem outros excertos desse relatório sobre o Caminho de Ferro de Angola, um dos mais cruéis e destemperados cartazes de incitação à exploração da população negra; verdade é que na propaganda oficial, oficiosa e particular, se procurava disseminar a ideia de que as nações europeias tinham como missão levar a África o facho da Civilização, quadro que contava com o apoio da presença de missionários católicos e também de protestantes que propagandeavam a fé cristã e as virtudes dessa mesma Civilização, mesmo que não poucas vezes se batessem em prol dos “índigenas” e contra o desbragamento das leis e práticas administrativas das chamadas “possessões” africanas; no caso da possessão da costa oriental – ainda, segundo António Enes – deveria a presença da Igreja Catílica congregar-se num “instituto subordinado ao governo português e à prelazia da diocese de Moçambique, destinado a congregar e a habilitar pessoal para os serviços eclesiásticos, para a propaganda religiosa e moral e para o professorado primário nessa diocese”, fazendo desde logo a reserva de que não teria “capacidade jurídica para possuir por qualquer título propriedade imobiliária” e de que não poderiam usar no seu ministério “outros idiomas além do latim canónico, que não sejam o português e as línguas indígenas da província de Moçambique”. Esta é uma questão, a da Língua Portuguesa” a que obrigatoriamente terei de voltar.

As recomendações do acima citado Relatório de Obras Públicas… constituem um brutal ultraje, um crime contra as populações negras que não tinham como defender-se nem encontravam quem os protegesse dos desmandos dos primeiros colonos, um mundo em que tinham parte muitos condenados a degredo pela justiça portuguesa.

Há ainda que recordar o facto de este tipo de extorsão se ter praticado durante todo o período colonial, ao mesmo tempo que desde os primeiros tempos da concretização da ocupação dos diversos territórios se aplicava o “imposto de palhora e mussoco” referidos num outro relatório, o de António Enes a que farei referência por mais de uma vez.

Lourenço Marques até finais dos anos 40 do século passado mais não era do que uma pequena urbe construída segundo dois planos: a “cidade velha” – a que mais tarde se chamaria “a Baixa” – e um segundo que se espraiaria pelos diferentes bairros da cidade alcandorando-se pelos matos e que com o avançar dos anos estabeleceu os diferentes patamares da sociedade “laurentina”, depois alcunhada “cocacola” que acolhia um número apreciável de cidadãos estrangeiros. Foi esta a lógica que lançou os alicerces dos bairros da Polana, Carreira de Tiro, Maxaquene, Alto Maé, Malhangalene e Xipamanine, sendo que nos arruamentos deste e traçados na continuação do bairro popular chamado de Alto Maé residiam populações brancas – muito especialmente oriundos de Portugal, alguns dos quais se tinham adaptado à vivência negra e de quem se dizia desdenhosamente que estavam “cafrealizados” -, mestiças, indianos islâmicos – maioritariamente originários da parte da Índia britânica que em 1947 formou o Paquistão, mas também chinas… Também crescera um outro arrabalde, a Munhuana, que se tornaria célebre nos anos 50 e 60 porque aí na sua Maternidade de S. José nasceram amparados por freiras ??? uma boa parte das últimas gerações coloniais portuguesas.

Só mais tarde é que a Sommerschield tomou forma e ganhou nas conversas locais a aura de um bairro de gente enricada – um conceito muito discutível pois que se tomavam por gente de meios aqueles muitos que tinham um ordenado acima da média dos pequeno-burgueses que fizeram a cidade apoiados por uma mão de obra barata e sem protecção estatal. A Sommerschield mais não era do que um amontoado de vivendas instaladas em terrenos minorcas em que o volume da construção afogava a dimensão do terreno, mas também inúmeras casas em banda, tudo isto concentrado em arruamentos estreitos o que tirava qualquer beleza ao aglomerado e complicava o trânsito. Chegava-se à Sommerschield por uma avenida larga em que pontificava a Cadeia de Lourenço Marques enquanto quase ao centro do bairro se situava um edifício desmesurado – o Prédio Bucelatto – em volume e altura em que para além de andares para habitação se localizavam dois dos organismos com que o regime colonial procurou obstar ao que já era inevitável, a Independência: os “Serviços de Acção Psicosocial” e a “Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil de Moçambique”, esta última chefiada por militares e que durante muitos anos teve no topo Ilídio Trindade, coronel na Reserva, creio; era um homem discreto, correcto, seco, quase esquelético, sendo por esta última característica conhecido como “o fantasma da Ópera”. Nunca o ouvi falar, sequer sorrir.

No morro da Polana – terras vermelhas, um esplendor que contrastava com a matéria arenosa da praia da Polana que se estendia por cerca de 15 quilómetros até à Costa do Sol cujo restaurante servia desde os anos ? os mais deliciosos e apicantados mariscos que se pode imginar, tudo regado com a fresca e não menos deliciosa cerveja “Laurentina”, um das produções industriais da cidade que regalava muita e boa gente desde 1932 e que tinha uma cervejaria a funcionar na antiga “Fábrica” .

Da Polana descortinava-se o esplendor da Baía de Todos os Santos e ocasionalmente, na fímbria da distância, uma das Ilhas Xefinas em que se acantonava uma instalação militar – um bairro de vivendas, maiores ou menores, todas com jardim e quintal e raros prédios com mais de um andar; aí se situava, igualmente, a Residência do governador da colónia – cuja primeira pedra fôra colocada pelo Príncipe Real D. Luís Filipe quando em 1907 fizera o périplo das colónias portuguesas de África -, a do governador do distrito, a Secretaria Geral do governo, o Hotel Polana – construído em 19? numa posição privilegiada, dominando o sortilégio da baía, localizado a dois passos do “Caracol”, a rua estreita que em acordo com o nome corria em espiral cerrada até à praia e onde uma tribo gesticulante de pequenos macacos se chegava aos carros que desciam cautelosamente pedindo as bananas, os amendoins e as maçarocas que os “laurentinos” usualmente lhes propiciavam.

O “Caracol” permitia que os citadinos se sentissem como que enfronhados nos cafundós do mato, julgando sentirem-se mais directamente a vivência africana. O “Caracol” – deve ter tido um nome em homenagem a qualquer um ou a um qualquer – nascia junto do “Miradouro  Lisboa”, um espaço que não sei porquê sempre associo ao “Miradouro de Santa Luzia ? em Lisboa, desdobrava o olhar de quem aí parava com a magnificência dos azuis, turquezas e verdes das águas do Índico e os cenários carregados de orientes que o firmamento oferecia quando o pôr do sol chegava: tons de laranja sobre telas em fogo, vermelhões como sangue de dragão desmanchando as cortinas de amarelo torrado que se perdiam na lonjura rósea ou em carmins de japoneira, uma explosão de cor e de luz que deixava os corações parados, aguardando ansiosamente que esse entardecer ficasse como um vitral eterno na memória visual e como a emoção do apelo ao fascínio da Natureza.

Mais próximo dos edifícios do Governo, no outro lado da Polana, mais virado para o porto – o íman citadino – encontrava-se outro hotel de prestígio mas que nunca afrontou a soberania do “Polana”, o “Hotel Cardoso”, da família ?  A realidade é que não havia uma sequer possibilidade de comparação, não só no volume da construção e magnificência da construção mas principalmente pela arquitectura vulgar do “Cardoso”, uma manifestação de falta de elegância e cuja fachada bem poderia ser a de um prédio de rendimento, como tantos outros que se foram construindo em Lourenço Marques.

Na rua do “Miradouro” – chamada, do Duque, Artur?, da Duquesa, Luísa?, de Connaught, um dos filhos e nora da Rainha Vitória, a Imperatriz das Índias e Avó da realeza europeia, casal que visitou Lourenço Marques em 1910 – do seu lado, já descendo para a zona dos aquartelamentos ficava uma única casa de alvenaria, já um pouco desbotada pela idade. Era o casarão em que viviam os meus Avós, uma casa com uma estrutura quase quadrada que tinha um magnífico quintal com árvores frutíferas em que se destacavam imponentes mangueiras, abacateiras e papaieiras; no jardim fronteiro à moradia, os meus avós esmeravam-se no cultivo de magnólias, rosas (de todas as gradações de cor, desde a branca e a rosa até às vermelhas côr de sangue) e camélias, estas, as japoneiras, ora de delicada cor de carmim ora de um branco imaculado, postais de memórias que ainda preservo como delicadas lembranças.

No interior da casa, na varanda que abria para o corredor que de alto a baixo dividia quartos e salas e terminava na copa de uso diário, junto à cozinha suficientemene espaçosa para fornecer alimentação aos 7 filhos e sua descendência, vicejavam esplendorosos fetos de folhas largas e pequenas ? delicadas bem como avencas que cresciam sem pedir licença a quem cuidava deles, exigindo, porém, o seu afecto; cresciam, quase espontaneamente, alargando e crescendo a folhagem em diferentes cambiantes de verdes, desses verdes esplendorosos e fascinantes como apenas se encontram na natureza tropical.

Não era esse, porém, o maior encanto da casa e do terreno à sua volta: o quintal terminava no inevitável muro que delimitava a pequena propriedade que o Avô tinha alugado e terminava porque aí começava a íngreme descida do barrocal que levava à “marginal” que tinha do outro lado o Clube Naval que manteria o brado pelos chás dançantes – com orquestra, pois claro -, aos dias de praia e de cavaqueira, o mais das vezes vazia de conteúdo e de objectivos, mas também das malvadezas comuns nesse tipo de conversatas a eito e sem jeito, dos praticantes da arte da Vela e dos mergulhos nas águas salgadas. Nunca consegui imaginar o que poderia ter acontecido se os miúdos da casa e os vizinhos, capitaneados pelos meus tios mais novos, o A. e o C., desciam desabaladamente as barrocas, soltando brados à cow-boy e à índio; perigo e berraria assim só acontecia nas “matinés” do Scala. Felizmente (que eu saiba) nunca aconteceu nada de mais, para além de arranhões, esfoladelas e entorses!

Mais tarde, os meus Avós que sempre viveram desafodamente construiram – em resultado de uma benção extra-terreste – a sua casa na Av. Brito Camacho, poucos talhões abaixo do “Hotel Girassol”, uma construção redonda da família Sousa que começara o negócio hoteleiro muitos anos antes e que também possuía o “Hotel Avenida” na Baixa da cidade. A nova casa dos meus Avós deveu-se a dois acontecimentos curiosos: em 1947, quando o meu Avô atingiu o limite de idade e se reformou da função de agrimensor da Câmara Municipal da cidade, o conhecimento generalizado e na presidência da Câmara de que se tratava de funcionário que nunca talhara nenhum pedaço de terra para si, nem sequer constasse qualquer zum-zum sobre corrupção, decidiu a Câmara a oferta de um seu talhão localizado numa das zonas nobres da cidade, um terreno que proporcionava um panorama privilegiado sobre a Baía do Espírito Santo, alcançando à esquerda a vastidão oceânica e à direita a actividade tumultuosa da vida portuária; coincidiu esse facto com um outro de igual cariz: saíu-lhe a Sorte Grande, nessa época em contos de réis, “fortes”, acrescento eu. Não se ficou por aqui o sortudo Avô; o cauteleiro vendera-lhe o bilhete inteiro e insistira para que comprasse o outro bilhete que lhe restava pois estava quase na hora do sorteio. Não me recordo do “número da sorte” mas creio que terá sido o 610 enquanto o outro bilhete tinha o 611! A roda da fortuna deu-lhe, pois, o 1º prémio que suponho terá sido de 600 contos e uma das aproximações, mais 10 contos!

Construíu uma casa bifamiliar, de 3 pisos – o rés-do-chão para alugar a uma das filhas, o 1º e o 2º para viver. É uma casa desafogada, espaçosa mas mal dividida e com uma fachada de meter medo ao susto; desenhada pelo mais velhos dos filhos varões, o Z., de Zeca, desenhador de construção civil da Câmara Municipal, tem uma varanda que se apresenta como a ponte de comando de um barco, um horror inestético, um mau gosto em V mas um V deitado, uma coisa inexplicável! Mesmo ao lado da antiga Residencial Marlin. Hoje, o lustro dos anos empresta-lhe alguma solenidade, muito vagamente Deco.

Aposentação, terreno e “sorte grande”, deixaram-no livre para o que sempre lhe agradava; cuidar das rosas e das magnólias do jardim, mas, muito principalmente, ir para a “machamba” lá para os lados de Goba – pela estrada, a c. de Kms de Lourenço Marques – e onde gostava de olhar pelo gado que tratava com desvelo. Como nunca tirou carta de condução um dos filhos gémeos, o C., conduzia-o numa automóvel e era vê-lo feliz, mesmo que pouco sorridente, quando regressava ao domingo do seu fim de semana.

Era a costela de lavrador que continuava a falar, desde que deixara a terra natal, Oliveirinha do Bairro (Anadia), para seguir como professor num contingente militar que terá aportado a Lourenço Marques por volta de 1910.

O Acaso?, o Destino?, Deus?

Como republicano da velha guarda, casara-se, apenas pelo civil em 1912 e creio que nunca tinha acertado as contas com a divindade, apesar de ter enviado as 4 filhas para estudarem num colégio de freiras irlandesas (?) em Ermelo na África do Sul que recebia e instruía, além de raparigas portuguesas, igualmente inglesas, sul-africanas, sírias, judias, libanesas, etc. Essa jovens adolescentes em flor, viajavam acompanhadas nas épocas de férias entre Ermelo e Lourenço Marques, numa carruagem do combóio que diariamente ligava o porto da capital da colónia à cidade rainha do ouro, do carvão e dos diamantes. Segundo a tradição que recolhi entre familiares e gente com quem se convivia há muitas dezenas de anos as raparigas cresciam em harmonia e beleza; logo, os rapazes que as viam despontar como flores apetecíveis, passaram a apelidar o colégio – convento de Ermelo como a “Universidade do Marmelo”; aí, as estudantes frequentavm aulas de língua e literatura inglesa, de matemática, de ciências da natureza, de desenho, de pintura, de ténis – um must social da época – e igualmente de piano e de violino com prémios de referência do Conservatório da África do Sul.

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Lourenço Marques, elevada a Cidade por D. Luís I (1)

Como era Lourenço Marques, quando nasci há 77 anos?

Uma pacata capital colonial – elevada a cidade com a assinatura do rei D. Luís I (Novembro de 1887), também o ano do Plano de Expansão que definiu o seu arruamento para mais de 70 anos – e que passou a capital da Colónia em substituição de Moçambique, a cidade-ilha que durante séculos centrara os interesses do Reino na Costa Oriental de África, ainda que dependente do Governo da Índia, e onde, durante séculos, perpassaram histórias, “estórias”, historietas, boatos, invejas e ardis portugueses, bem como de muitos aventureiros estrangeiros e, ainda, o nome de Camões.

Essa descida do Norte de Moçambique para o Sul indicia a atenção que o governo de Lisboa estava a dedicar não apenas ao desenvolvimento da Colónia como, ainda, à defesa do nosso interesse face à crescente pujança da influência britânica já que esta estendia o seu manto sobre vastíssimas áreas africanas, em especial as localizadas nos trópicos e, mais a Sul, nas das zonas de clima temperado.

Foi assim mesmo. Vários países europeus acharam-se no direito de traçar, por tratados, as fronteiras de centenas de milhar de quilómetros quadrados onde viviam milhões de humanos que não foram consultados; a questão das fronteiras pouco ou nada dizia aos povos africanos que, aliás, como é histórico, resistiram quanto puderam com zagaias, arcos e setas, escudos de pele e um que outro bacamarte, à ganância pelo marfim, peles, ouro, pedrarias, ainda que estas estivessem em bruto, depois de, durante gerações, os europeus se terem saciado com o tráfico de escravos, depois extinto oficialmente mas que se continuou sob a capa de estratagemas jurídicos.

A população negra, dividida em tribos e a prática de línguas diferentes, apenas conhecia o mundo em que vivia e por onde circulava chegando aos limites definidos pelos percursos possíveis, isto é, não indo além das caminhadas que podiam efectuar em poucos sóis e luas.

As ideias europeias eram estranhas aos naturais. Fácil é compreendê-lo porque assim também viria a acontecer aos portugueses de 2.ª e 3.ª geração nascidos no território. Criaram raízes na terra em que tinham nascido e onde já estavam sepultados, pais, avós e bisavós; consideravam-se tão africanos – mesmo que não na cor – e consideravam a terra que pisavam e que um dia lhes serviria de mortalha, como sua, mesmo que se perdessem, igualmente, na saudade do que nunca tinham conhecido, o distante Portugal onde tinham nascido e vivido os seus antepassados.

Tendo crescido no distanciamento das raízes de sangue e sentindo-se, só porque eram brancos, como uma parte, ainda que ínfima, do Poder na África conquistada, acreditavam estar a contribuir para a civilização das massas humanas submetidas. De entre estas, mesmo quando viviam e procediam “à portuguesa” , destacam-se os africanos negros que alcançavam o estatuto de “assimilados”; eram, porém, olhados com desconfiança e o convívio entre as duas comunidades manteve-se distante e fraturante. Assim se pensava e se sentia antes do 25 de Abril; boa parte dos coloniais enaltecia a grandeza da Pátria distante, mesmo que pequena e pobre, mas extasiava-se por se sentir nos grandiosos e infinitos espaços africanos, perdidos e esquecidos que estavam o passado Índico e os enclaves na China e na (hoje) Indonésia.

Durante tempos, olhou-se para África como se essa fosse a fonte principal da redenção portuguesa, do restaurar da grandeza passada, a tal de que ainda hoje se fala mas que nunca ninguém ou quase ninguém – se exceptuarmos a propaganda do fim da Monarquia, da I República e do Estado Novo – fala com discernimento, conhecimento de causa, conhecimento directo, entenda-se, com isenção de falsos nacionalismos e mais falácias, a que, até hoje, muitos são os que vivem ancorados, em especial, quantos nunca superaram os “fumos” do Império.

 Lourenço Marques foi, ao longo dos anos, deixando os pântanos doentios que alimentavam o paludismo  – a doença terrível a que os mais ilustrados chamavam malária -, também a bílis de que se falava, apresentando a “biliose” como um vírus terrível que, como muito ouvi dizer, só acalmava e regredia com champanhe francês, o belo pretexto para a rapaziada que aguentava uns copos e que nisso fazia gala, antes que o whisky, como é fácil entender, entrasse a jorros no consumo de todos os que o preferiam ao vinho e à aguardente metropolitanos.

O whisky tornou-se um lenitivo apetecido, uma cura para todos os males, mais, evidentemente para quantos o apreciavam com gelo e água mas também com água tónica e até com soda… Chegou a ser indicado como prevenção contra as febres palustres, aliás, mais um hábito que justificava o seu consumo ao fim da tarde. Recordo como era comum encontrar nos meus anos de menino, quem, ao fim da tarde, se sentasse em cadeiras de verga, junto à respectiva mesa de apoio, oriundas da Ilha da Madeira; bebericava-se o néctar escocês nas largas varandas coloniais ornamentadas com colunas de madeira encimadas por grandes vasos de cerâmica, ou de barro, com fetos e avencas muito verdes, pujantes e faustosos nas suas ramagens.

Lourenço Marques ou L. M. (depois marca de cigarros que fez carreira na Colónia), foi durante decénios uma terra de lamaçais, com casas pobres e armazéns cobertos a zinco, por vezes a colmo, e distinguia-se pelo crescer do casario que rompia a vegetação das encostas sobranceiras ao porto e à malha urbanística da Baixa, “onde tudo começou”, como sempre ouvi dizer e que acabaria por resultar numa das mais belas, modernas e bem desenhadas cidades de toda a África.

(continua)
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Reconstruções da Memória (3): ainda o Fernando Bettencourt

(continuação)

Com este palavrear, nem acabei de contar o que se passou com o Fernando Bettencourt. O Fernando lia, e muito, tanto como adorava seguir as “ninfeletas”, catrapiscá-las, enamorar-se e namorar as que lhe correspondiam… Como lia bastante e como vivia os sonhos do pós-guerra que falavam em Liberdade, Fraternidade e Igualdade, uma trindade que à época já contava mais de 170 anos, uma miragem nunca alcançada que, aliás, a mão, o gesto, a voz, o sentir, o pensamento e a acção dos homens nunca permitiu, e duvido que venha a permitir concretizar, também navegava pelas nuvens e sonhos da Europa Oriental.

Denunciado – sabe-se lá por quem -, ele que era um leitor inofensivo, por ventura nada mais do que um devaneador, acabou na choldra da PIDE. Encontraram uma ou duas cartas que lhe escrevera após a sua partida de Vila Manica e aí vai disto! Trabalhava eu na empresa gasolineira cujos escritórios se localizavam em plena “Baixa” da cidade, emprego em que penei 17 anos, aí começando a redimir-me dos pecados pela obrigação em ouvir e conviver com opiniões caricatas, e até soezes, “lamechadas” ou arengadas por colegas cujos principais fitos eram a comilança, a ambição monetária, o futebol, a praia, correr saias, para além das constantes mesquinhice e inveja. Claro que havia excepções mas, em toda a verdade, não eram assim tantas…

A PIDE chegou quase ao cair da manhã de um dos dias finais de 1957 quando os cafés da zona (“Continental” e “Scala”) regurgitavam de gente; trepou ao prédio, entrou de rompante, os agentes armados como manda o figurino e falando suficientemente alto para que se pudessem ouvir em todo o prédio. Pegaram-me, um em cada braço e descendo a escadaria do Prédio Santos Gil, empurraram-me para um jipe, levantando burburinho na esplanada do “Continental”.

Lá fui a caminho do interrogatório e de duas valentes bofetadas e alguns murros. Como era só pele e osso (que saudades, êh pá, que saudades!) doeram-me para caramba e voei de um canto a outro da casa; o agente tentou espremer-me porque lhe fazia confusão que tivesse um pronome eslavo; não acreditava!, aquilo era nome de código do partido (???!!!???) e tinha que “vomitar” ali, ali mesmo, o nome dos que compunham a célula! Como se tratava de coisa de que nunca ouvira falar e como sabia que em Moçambique a “fome” da PIDE estava mais voltada para os movimentos, então ainda ténues, do nacionalismo moçambicano, não atinava com o caso; fiquei, no entanto, muito animado quando ouvi que o Bettencourt também estava engaiolado e que também não avançava nada! Pudera, ele era “comunista” pelos livros, ainda que depois tivesse aportado a Argel e se inserisse na  propaganda anti-salazarista, como era natural, correcto e dava um certo espírito de Liberdade a quem comungasse nessa oração.

Desiludido, esteve, depois, na Checoslováquia e em Paris onde voltou a casar. Entusiasmado – sempre numa onda poética de sonhos e devaneios – partiu para Moçambique para, tal como ouvi a muitos outros! – ajudar a reconstruir o país dinamitado pela exploração colonial; levou a mulher, a Eisabete, os livros e discos que eram toda a sua riqueza. Acabaria por ter de deixar tudo, isto é, os  nadas que faziam a sua vida, os livros e os discos (ainda de 78 rotações) e fugir. Foi a  2.ª vez que fugiu de Moçambique.

Voltámos a encontrar-nos anos depois; esteve em nossa casa durante uns 15 dias e depois regressou às “Franças”. Ainda voltou a Lisboa mais uma vez, dessa feita com a Elisabete e continuámos a usufruir tempos de boa amizade. Depois, abalou para Paris e como nunca escrevia perdemos-lhe o rasto. As cartas que escrevi para a morada que tinha regressavam por abrir. De uma feita que estive em Paris, fui ao Consulado português para saber se localizava o casal. Porém, como não estava registado – pelo menos assim me disseram – voltei a Lisboa e nunca mais soube dele, isto é, nunca mais tive dados concretos. Cerca de um ano atrás soube que tinha morrido e que a mulher vivia em Bordéus com o filho de ambos. Da filha Ada nunca mais soube, nunca mais ouvi falar. Há dois/três anos atrás soube que uma das irmãs do marido, de apelido Tabosa Vaz (?) estaria por cá e que se encontraria com um parente meu; pedi-lhe que se encontrasse a tal familiar da Ada lhe pedisse o endereço; como nada me chegou atempadamente, telefonei-lhe umas semanas depois e respondi em resposta um seco “não me lembrei de falar nisso”. A família tem destas coisas: ou tem o mesmo sangue mental e os mesmos afectos ou é como acabei de relatar, uma indiferença mais fria que uma calote polar envolve um mar de gelo.

Voltarei, depois de mais umas horas, para continuar este rol de vida.

(continua)

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Reconstruções da Memória (2)

O meu sogro (o primeiro de pé, à esquerda, com o braço apoiado na espingarda), o futuro administrador Arlindo Dias Graça, numa caçada na Zambézia, nos anos 20 (foto da colecção © Angela Camila Castelo-Branco e António Faria)

(Continuação)

A propósito da Namaacha permita-se-me uma pequena viagem pessoal. Andava eu pelos 22/23 anos quando me vi envolvido numa embrulhada como outra não vivera até esses dias. Um dos grandes Amigos com quem me cruzei na vida chama-se ou chamou-se Fernando Bettencourt Rosa que conheci quando em 1956 cumpri serviço militar na Vila de Manica – a antiga Macequece – que tinha como comandante do quartel, o Capitão Passos Pereira de Esmoriz que depois da Revolução voltei a encontrar já General no Comando da Guarda Fiscal; aparentava ser oficial muito severo, até rígido e intransigente, dado a explosões de mau feitio; naquela época não me pareceu assim tão terrível, apesar de haver oficiais, sargentos e praças que o temiam; fiquei sempre com a ideia de que se tratava de pessoa sensível, com interesses culturais e que sempre me tratou com agrado mesmo quando me pregava um raspanete; guardo ainda, um delicioso documento anotado e assinado por ele: ao fim de semana, se o pessoal queria andar à civil tinha que pedir autorização ao Comandante; numa dessas ocasiões, no pino do Verão, Fev.º/1956, o pedido recebeu, a vermelho, um despacho seguinte em que dizia que apesar da “ligeireza dos costumes” africanos não devia vestir um calção com medidas tão diminutas; ora, eu, pesava nesses tempos idos não mais do 55 quilos!, uma ninharia para o meu 1,77cm!  O capitão que vivia em Manica com a mulher e uma filha ainda criança, tratava-me de uma forma diferente dos demais cabos milicianos porque me via sempre de livro na mão ou debaixo do braço, num tempo em que quase somente lia francês, Camus, Prevert, Aragon, Bernanos, Mauriac, etc, i.e., o que vinha a eito, “era canja”.

Creio que posso dever o seu bom tratamento a esse amor à leitura. Talvez por isso tivesse direito a  outro tratamento, diferente do que aplicava a outros camaradas. Numa tarde assomou à porta do seu gabinete e esticou a voz estentória: “Cabo Miliciano nº 19, ao Gabinete”; estava eu muito compenetrado a fazer na messe um galão de leite com café e chocolate quando o ouvi; estava de meias caídas, sem bivaque, as dragonas sem as divisas, o cinto desapertado, a camisa aberta até ao umbigo; assim avancei para o Gabinete, mexendo com cuidado o cacau no leite para que não ficasse com grumes; o Capitão ficou sem palavras e sem capacidade de gritar; virou-me as costas, bateu com a porta e fechou-se no seu canto. Não tenho lembrança de que me tivesse voltado a chamar naquela hora ao meio da tarde.

Tratava-se de um  chocolate holandês, o “Van Hutten”, uma delícia a que me habituara desde miúdo, comprado na mercearia “Magalhães & Sousa Dias”, casa comercial na antiga Avenida da República em Lourenço Marques e onde os meus pais eram clientes e faziam o “rancho” mensal. Do pessoal da mercearia  recordo a simpatia do Sr. Ferreira, atencioso e simpático que me ficou na lembrança já que me mimava sempre que lá íamos   com uma bolacha de araruta sempre que lá íamos. Outrossim fazia um dos proprietários, o Sr. Magalhães, que não nos deixava sair da loja sem uma guloseima. Essas delicadezas eram então correntes nas casas comerciais do género, assim também acontecendo na igualmente afamada “Pérola do Oriente” que se localizava na mesma larga avenida que funcionava como o eixo da “Baixa” da cidade; se estivéssemos de frente para a ponte-cais, a Av. da República prolongava-se pela esquerda com outros nomes, pois claro, pela marginal que corria quilómetros até à Costa do Sol, enquanto que para a direita seguia junto à cerca dos Caminhos de Ferro e ia nem sempre por caminho recto até ao ponto em que os subúrbios mergulhavam no mundo negro e desconhecido da “cidade do caniço”.

Volto, porém ao Fernando Bettencourt que para uso corrente podara a Rosa do apelido, como aliás, fez no registo da filha Ada e também muito possivelmente com o filho Aksel (?) ou Axel que nunca cheguei a conhecer; andava a caminho dos 30, quando o conheci; estatura média, moreno, insinuante, era então oficial miliciano que em boa verdade nada tinha a ver com os “homens da guerra”; gostava de ler e de música e não tinha nenhuma das qualificações exigidas para servir o Exército, mesmo que em tempo de paz; fazia sonhos e embrenhava-se em utopias, de que a menor era a de viver dia após dia na procura de um grande amor.

Bom, talvez não fosse bem assim já que entrava em novas paixões muita vez, paixões em que também surgiam as ninfeletas, percursoras da Lolita que poucos anos depois chegaria aos escaparates. Fazia quanto lhe era possível para que a mulher, a Didi, não desse por nada, obviamente, uma pretensão impossível mas que ele julgava exequível.

Foram dois grandes amigos e ao Fernando devo o ter lido escritores franceses e portugueses que de outro modo não teria conhecido. É que Lourenço Marques mais não era do que uma vilória com pretensões e algumas benesses de que a menor era uma praia enorme que se estendia aos seus pés e se prolongava por quilómetros até à Costa do Sol onde existia um restaurante cervejaria, famoso pelos camarões e a cerveja geladinha, a “Laurentina”. Ora está bem de ver que nesses anos 40 e 50 do séc. XX, laurentinos e laurentinas eram os naturais da cidade que só depois passaram a ser chamados de “coca colas” em consequência da introdução desse refrigerante no consumo citadino. É que Moçambique usufruía da regalia de poder beber o refrigerante, aliás, muito menos açucarado do que o mesmo produto que se vende no cantinho português da Europa. Dizia-se, à boca pequena, que Salazar não deixava produzir a bebida em Portugal Continental só para fazer ferro aos americanos que não o apoiavam como ele desejava!

Dos primeiros governadores, recordo o Coronel José Ricardo Pereira Cabral que entrou em funções depois do triunfo do 28 de Maio (1926-1938) e de que retenho o nome apesar de o Coronel José Cabral ter sido o nome dado ao parque localizado perto do Hotel Polana e onde a criançada da cidade “reinava” feliz aos saltos e pinotes e por vezes festejava os seus aniversários. O Coronel deixou o cargo e logo depois assumiu o governo da Índia mas deixou descendentes em Moçambique de que alguns conheci; não posso ter qualquer imagem sua, já que à data era eu menino de andar pela mão da minha Mãe.

Sucedeu-lhe

Comandante de Mar e Guerra Gabriel Teixeira, homem de origem madeirense.

Também assim acontecia com os presidentes das Câmaras das principais cidades, oficiais do exército que depois de passarem à reserva militar eram nomeados para sinecuras coloniais, mesmo que nada soubessem das gentes africanas que viviam de Norte a Sul da “possessão” nem das comunidades estrangeiras de vários e diferenciados tons de pele.

Poderia fazê-lo, no entanto, para recordação de filhos e de netos, até porque a minha filha se dedicou e dedica os tempos livres ao tratamento, estudo e organização de uma colecção de fotografias de povos e terras do chamado “Império Colonial, algumas das quais autênticas e verdadeiras pinturas de brilho delicado e expressivo, não obstante a leitura que se possa fazer da situação em que viviam .

Ora, verdade é que poderia escrever longos parágrafos explicando as razões dessas cicunstâncias. De todas essas razões nenhuma frutificou em alperces de gosto saboroso e adocicado cortado por um leve travo de acidez, nem floriu como a flor vermelha do jacarandá. Nada disso.

Tudo aconteceu numa viagem de carro entre Lisboa e Coimbra aonde acompanhava um amigo, simpático, “tifoso”do Benfica, talentoso na sua arte, honesto e ambicioso, incapaz, porém, de se conter, falando de tudo e de nada sem qualquer base nem objectividade e não aceitando a experiência e o saber que a idade acumula pela leitura e pela observação dos diferentes estádios vividos.

Compreendi, depois de uma discussão – por vezes violenta – que não nos compreendíamos; dizia ele que uma monarquia é sinal do passado e reforçava a ideia acrescentando que Portugal é mais avançado do que os estados nórdicos; que as colónias nunca deram a Portugal qualquer vantagem, exceptuando-se o tempo de D. João V em que corria ouro a rodos para o país; que dos diamantes de Angola – assim mesmo, possivelmente nunca tendo ouvido falar na Lunda, sequer na “Diamang” – só chegavam a Lisboa umas ínfimas partículas; que de Angola e de demais colónias nada vinha com interesse para além dos pedidos de dinheiro; que a Piaf – perdõe-se-lhe o sacrilégio – era artista inferior ao Emanuel e ao Marco Paulo; que as mais importantes manifestações culturais da actualidade residiam nas novas tecnologias, em especial na utilização de computadores, i.e., conteúdos vencidos pela pujança das máquinas!, etc., etc.

Toda esta conversa mais não é do que um pretexto para visitar o passado, reconstruindo memórias que as águas do Tempo têm levado no correr dos anos, tantos, muitos mais dos que o calendário regista já que a saudade não se conta pelos anos passados.

(continua)

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Reconstruções da Memória (1)

A Igreja da Namaacha, localidade onde os meus pais tinham uma “casa da montanha”. Local paradisíaco, de temperaturas amenas e secas (foto da colecção ©Angela Camila Castelo-Branco e António Faria)

A Primeira Página

Explico-me. Ainda que raramente, chegava-me ao pensamento a ideia de escrever “umas coisas” sobre o meu passado português na terra em que nasci e vivi 40 anos e uns dois meses mais, uma das minhas pátrias, Moçambique.

As ideias são como a espuma. Vêm à crista da onda e desfazem-se logo de seguida se as não apanhamos na curva mais alta e nos deixamos levar no seu movimento como se nos libertássemos em voo solto nos ares.

Achava, ainda, que nada tenho de importante para contar, então, para quê e porquê escrevê-las? Nunca tive um cargo importante, nunca fiz uma carreira – naquilo que se entende como uma “carreira”, um escalar de posições, muita vez, sabe-se lá como foram atingidas! -, nunca fiz fortuna, nunca vivi vertigens de poder e a única vez em que uma situação se me afigurou ao alcance da mão, logo desliguei o aparelho que me ligava a essa maquinaria, a da importância.

Parece-me que se trata de uma má formação adquirida na então Lourenço Marques, em especial por aquilo que observei ao longo da meninice, adolescência e já como adulto. Lá, na sempre saudosa Lourenço Marques – acrescente-se que já não conheci a actual Maputo -, qualquer lugar, desde que mais não fosse do que um primeiro patamar de chefia – estava reservado a gente nascida na então “Metrópole” e que ia chegando a Moçambique já com a nomeação assinada pelo Governo Central ou escolhido pela Administração das grandes companhias – não só portuguesas – que “chupavam” o tutano colonial e ficaram conhecidos pelo ápodo de “inspectores de cachimbo”; aos portugueses fixados na colónia há várias gerações restavam o trabalho administrativo e as funções de capataz-feitor e outros semelhantes nas explorações agrícolas, nas companhias comerciais e industriais ou de escriturário, isto é, paus mandados às ordens de todo e qualquer pintalegrete –  muita vez semi-analfabeto, “chegante” de recente data e que se adornava com um grau académico, assim, destinado a ocupar um cargo de relevo. A partir dos anos 50 as coisas mudaram e logo na década seguinte, a de 60, foi um ver se te avias que não tem explicação! A cidade cresceu desabaladamente, fizeram-se negócios de alto lá com eles, os aviões da TAP descarregavam gente em catadupas, quase toda amanhada à sombra dos poderes… de Lisboa. Inclusive, nas grandes companhias portuguesas e creio não estar a disparatar porque muitos foram os que conheci na petroleira em que gastei 17 anos, desde a juventude até aos quarenta!

Aliás, só depois de ter chegado a Lisboa é que descobri como é que era possível tal situação. Bem sei que o 25 de Abril encharcou as Faculdades com tipos que não tinham qualquer preparação nem aptidão intelectual. Alguns, até, escreviam que era uma dor de alma. Foi um baque na alma. Alguns “mestres” havia que nem licenciados eram!

Na colónia também havia aqueles – em especial nos anos 10, 20, 30 e 40 – que tinham chegado por qualquer delito e tinham sido punidos com o degredo ou com residência fixa na Colónia. Também havia quem chegasse ao território pelos mais variados motivos, incluindo-se nestes a cura de males de amor –incluindo os que se sabia terem sido adornados com galhos à antílope – e continuavam a receber cartas das “arrependidas” que choravam em delíquios de letra garrafal e com afrontamentos garatujais pedindo todos os perdões do mundo; havia, ainda, os sofredores da pauta política vigente, os que tinham corrido calçadas pelas dificuldades de emprego, mas, muito mais frequentemente, a procura de uma situação social e/ou financeira superior à deixada na distante “terrinha” marejada pelo Atlântico, nestes também se incluindo quantos tinam o espírito de aventura e se lançavam de peito feito à aventura africana.

Num patamar elevado estavam os governadores gerais, por vezes, também, os governadores de distrito – que saíam das fileiras de oficiais superiores da Marinha ou do Exército para exercer a suprema autoridade colonial. A cadeia de governantes que ocuparam o cargo em Lourenço Marques de 1934 a 1974 é fácil de estabelecer e como se sabe foi preferencialmente elaborada com oficiais do Exército ou da Marinha.

Exceptuam-se os últimos, o médico e prócere marcelista que na terra ganhou bom nome em várias camadas populacionais, até entre a população negra, Baltasar Rebelo de Sousa (1968-70), o Eng. Eduardo Arantes e Oliveira (1970-72) e o Eng. Manuel Pimentel Pereira dos Santos (1972-1974).

Na sequência do 25 de Abril a porta abriu-se a uma rápida sucessão de nomes que rodaram e saíram em alta velocidade: David Teixeira Ferreira; o advogado Henrique Soares de Melo que se dizia ter chegado à efémera função por obra e graça do advogado António Almeida Santos que depois de regressar a Portugal iniciou uma carreira política que lhe deu acesso a altos cargos, nunca atingindo o lugar de Primeiro Ministro a que se candidatou numa peleja em que ele e o seu partido, o PS, saíram vencidos; David Teixeira Ferreira e Jorge Ferro Ribeiro, todos em 1974, seguindo-se, depois, o oficial da Marinha, Victor Crespo (1974-75), que foi o alto comissário português em Moçambique encarregado de fazer a transferência de poder para a Frelimo e sobre quem se contaram as estórias e historietas de x. p. to, muitas das quais possivelmente atoardas, sempre comuns em momentos de desvario e de crise.

Assim quero crer.

De todos estes últimos, lembro-me do Soares de Melo, de uma família de origem indo-portuguesa, referência que se faz pela importância que durante decénios a população dessa origem teve na gestão da Colónia; era um conceituado advogado na capital; lembro-me bem da bela casa que os Soares de Melo tinham na Namaacha – a que pelas qualidades climatéricas chamavam a “Sintra” de Moçambique, pequena vila alcandorada nos Montes Libombos e onde muitos laurentinos, também alcunhados de “coca-colas” tinham casas de férias, vulgo vivendas, umas maiores, outras menores. E não se riam com a qualificação: é que, ao tempo, Moçambique era a parcela do império português que tinha uma fábrica de coca-cola.

(continua)

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